“O que Trump está fazendo já teve repercussões no Brasil’, diz diplomata – na verdade – Estadão

Em um cenário internacional de transformações e incertezas, o Brasil precisa encontrar o seu lugar. O caminho a seguir deve estar na agenda e nos debates entre os candidatos na próxima eleição, como diz o diplomata Rubens Barbosa, ex-embaixador do brasil nos EUA. Questões como a política económica do governo Trump e a crise na Venezuela não deve ser alheio ao debate político interno. Em seu livro o Lugar do Brasil no Mundo: Agenda para a Modernização, ele sugere ideias e propostas para este debate em uma coleção de artigos publicados em o Estado entre 2014 e 2017. A seguir, a entrevista que Barbosa deu à matéria de facto:

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Falta o debate sobre a política externa brasileira entre os candidatos presidenciais?

Devemos colocar isso na agenda. Não se pode discutir apenas a estabilidade macroeconómica do País. O mundo está se tornando uma rapidez muito grande. Veja o que acontece com Trunfo. O que ele fala lá, o que se move tem um impacto em todo o mundo. Qual é o lugar do Brasil no mundo? Nós precisamos começar a discutir esse tema. Ele não está na agenda dos candidatos. Um tema que eu vi discutido nos últimos meses em termos de política externa foi o dos refugiados, da Venezuela. É importante, mas é pouco.

O que deve estar na agenda?

O brasil é visto como um país importante. Somos uma das dez maiores economias do mundo, apesar da crise de todas, através da qual estamos passando. Como estamos muito focados no interior, por causa da crise, não percebem que o Brasil é um país relevante no cenário global. E o problema é que nós ignoramos isso. Deveria haver, no Brasil, um debate de uma agenda política, diplomática, económica, comercial e de inovação e tecnologia, que irá influenciar a formulação da política econômica. Mas aqui não existe essa percepção de que os fatores externos têm grande influência na definição da política econômica. O brasil é um país muito grande, tem grandes problemas e há essa percepção de que o Brasil tem uma fronteira que delimita a autonomia do País no conjunto da política económica e agenda externa. Isso não existe.

O próximo governo vai lidar, pelo menos, por dois anos, com a política econômica do governo Trump. Como o Brasil pode se preparar para esse cenário?

O que Trump está fazendo já tem repercussão no Brasil, para a economia brasileira. Quando ele abaixa os impostos que têm um impacto sobre a competitividade brasileira. Quando o novo governo, espero que se você fizer isso, uma reforma tributária, e temos de levar isso em consideração. Isso não ajuda a congelar os impostos e transferi-los para as empresas brasileiras, para ser competitivo no exterior. Sobre a questão das barreiras que ele está colocando, de protecionismo, o americano, em um primeiro momento, pode ser um produto brasileiro que pode aproveitar o desvio de comércio para a China ou da China ou qualquer outro país para os EUA. Mas, no médio e longo prazo, em termos comerciais, o Brasil vai perder, como todos os outros países.

Quais são algumas outras maneiras que a política pode prejudicar o País?

Outro aspecto é que estas medidas americana gera uma grande incerteza no cenário internacional. E esta incerteza fará com que haja menos investimento e uma queda do crescimento mundial e do comércio externo. Já estamos sentindo aqui no Brasil, o aumento na taxa de interesse que há em nós. O real se desvalorizou muito contra o dólar, porque a política monetária seguida pelos EUA.

O sr. vê as propostas nesta área, estas eleições?

O que ocorre lá fora, imediatamente tem um impacto aqui no Brasil e da necessidade de todos os candidatos aqui é aumentar o comércio exterior, porque isso gera mais emprego no Brasil. Agora, o ambiente externo está se transformando em algo um pouco diferente dos anos anteriores, de que o Brasil poderia ter beneficiado. Hoje, o ambiente de incerteza, de insegurança e de queda de crescimento e de comércio exterior não é tão favorável para o Brasil. Trump é também ameaçando imposto sobre os carros da Europa. Isso vai ter um efeito brutal. Os carros são uma das áreas de comércio exterior, comércio. Terá efeito em todos os países, inclusive o Brasil, que exporta para o México, a Argentina. O futuro governo terá de se preocupar com essas coisas e terá de agir rapidamente para ajustar a economia brasileira a esta nova situação internacional.

O mais preocupante nesta nova situação?

Outro fator importante para o Brasil é o que vai acontecer com a Organização Mundial do Comércio (OMC), que os EUA querem destruir, acabar com ela. A OMC é importante para o Brasil devido ao mecanismo de solução de controvérsias. Países de tamanho médio, como o Brasil, e a pequena tem que dependem desses mecanismos de julgar as diferenças de comércio entre as nações. Para nós, é importante que a OMC seja mantida com força na área da arbitragem na solução de controvérsias.

Como o senhor definiria hoje a política externa brasileira?

Em resumo, o Brasil terminou o seu isolamento e o atraso do País em termos de inovação e tecnologia. O brasil tem de definir o que é de seu interesse a médio e longo prazo, algo que não estamos fazendo. O brasil e o Mercosul, nos últimos 18 anos assinaram três acordos de comércio. O mundo negociou mais de 400. Estamos isolados, o isolado, em atraso, e cada vez menos. Esta é a realidade. Não ajudar a melhorar a situação aqui sem ficar no mundo. Precisamos aumentar a voz do Brasil no mundo, organismos internacionais e introduza o Brasil de novo no fluxo dinâmico da economia e do comércio exterior.

Quais foram as conseqüências?

Perdemos competitividade. Esse é o grande problema, hoje, na economia, a produção nacional, a exportação nacional. É a perda de competitividade por políticas equivocadas, pelo aumento dos impostos, a burocracia, a ineficiência. Este é um resultado dos últimos 15, 16 anos. Com o nosso isolamento e a política de favorecimento do sul, a política sul-sul, estamos longe de países desenvolvidos, onde a tecnologia, o financiamento e a inovação.

O senhor cita em seus artigos, a exemplo da França, onde um movimento do centro ganhou o debate polarizado entre a esquerda e a direita. Vamos ter algo parecido com isso?

Bom, nós ainda não vi isso aqui em cima. Vamos ver quando começar o debate na TV, em que todos os candidatos vão falar. Deve haver um debate público em que essas idéias são discutidas. Temos que eleger um candidato que sabe o que é o desafio interno e o externo, e que as propostas que ele vai apresentar para tirar o Brasil do buraco em que estamos.

Por isso, como diz o senhor, as próximas eleições serão um divisor de águas?

No segundo turno, vamos ter um debate entre os dois modelos. Um modelo estatizante, olhando para trás, e um modelo de reformas, alguns candidatos que estão dispostos a fazer reformas. É entre essa população vai decidir e vai ter um impacto nos próximos 10, 15 anos. Se a população brasileira para escolher um candidato que vai olhar para trás e desejar desfazer as reformas que têm sido feitas ultimamente, então a crise que estamos vivendo vai continuar muito forte e vai nos levar para uma situação próxima do que o da Grécia. Já estamos vendo isso no Rio de Janeiro. Se escolher um candidato que está disposto a fazer reformas, olhar para a frente, abrir a economia, vamos ter a possibilidade de adicionar o fluxo dinâmico da economia e do comércio internacional. A opção que a sociedade irá fazer terá muita importância para os jovens, que terá de enfrentar o problema do desemprego, a melhoria das condições de vida aqui no Brasil.

A Venezuela é um tema importante. Houve uma recente mudança na abordagem do tema?

O Brasil tem de ter uma participação mais activa, para encaminhar alguma solução . Eu não sei como é que vai ser. A Venezuela, que está na fronteira, tem esse problema dos refugiados, dos direitos humanos de que o Brasil tem de enfrentar. Há também a ameaça à nossa fronteira, onde a drogas, de armas. Uma correção foi feita para importantes. Antes nós estávamos com o (ex-presidente) Dilma defendendo a Venezuela, quando ele já era conhecido de que o país estava em um caminho autoritário, pouco democrática. Com a mudança de governo, aqui, o impeachment, o Brasil começou a criticar o regime na Venezuela, e a cobrar dos políticos do país, as alterações, a liberdade dos prisioneiros políticos, a autorização para levar ajuda humanitária. Com o novo governo, o Brasil terá de ter uma posição com outros países, com os estados unidos, México, Colômbia, para resolver o problema e tornar a Venezuela democrática.

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